O teste da harmonia – Lee Strobel

em-defesa-de-CristoO texto abaixo foi extraído do livro “Em Defesa de Cristo”, de Lee Strobel, ex-ateu que se converteu a Cristo após dois anos de pesquisa sobre a veracidade do Cristianismo. Neste trecho, Strobel conta como foi sua conversa com o Dr. Craig Blomberg – considerado uma das autoridades mais importantes dos Estados Unidos nas biografias de Jesus, os quatro evangelhos – sobre as discrepâncias nos relatos evangélicos. É possível conciliá-las?


O teste da harmonia

Eis aqui um teste no qual, dizem os céticos, os evangelhos sempre são reprovados. Afinal, eles não se contradizem? Não há discrepâncias inconciliáveis entre os vários relatos evangélicos? E, se há, como é que podemos confiar no que dizem?

Blomberg concordou que os evangelhos parecem estar em contradição em inúmeros pontos.

— As incongruências vão de pequenas variações no fraseado até as contradições aparentes mais famosas — disse ele. — Na minha opinião, se você admite os elementos que mencionei anteriormente, ou seja, a paráfrase, a abreviação, os acréscimos explicativos, a seleção e a omissão, os evangelhos se mostram muito harmoniosos entre si pelos padrões antigos, que são os únicos pelos quais devemos julgá-los.

— Ironicamente — ressaltei —, se os evangelhos fossem exatamente idênticos, palavra por palavra, os críticos acusariam seus autores de estar mancomunados, para que suas histórias saíssem exatamente iguais, o que os colocaria sob suspeita.

— Exatamente — concordou Blomberg. — Se os evangelhos fossem 100% harmoniosos, isso os impossibilitaria de ser testemunhos independentes. As pessoas diriam então só haver um testemunho, os demais seriam só imitação.

Lembrei-me instantaneamente das palavras de Simon Greenleaf, da Faculdade de Direito de Harvard, uma das personagens mais importantes da história do direito e autor de um tratado muito influente sobre a prova. Depois de estudar o nível de harmonia dos quatro evangelistas, ele deu seu parecer:

Existe um volume significativo de discrepância, o que aponta para o fato de os autores não poderem ter estabelecido nenhum tipo de acordo entre si; por outro lado, há também uma harmonia de tal magnitude que demonstra sua condição de narradores independentes de uma transação de grande importância.

Para Hans Stier, estudioso alemão da escola historiográfica clássica, a harmonia dos dados básicos e a divergência de detalhes são sinais de credibilidade, uma vez que as narrativas fabricadas costumam ser integralmente consistentes e harmônicas. “Todo historiador”, diz ele, “torna-se muito cético no momento em que algo extraordinário só aparece relatado em narrativas completamente isentas de contradições”.

Apesar dessa verdade, eu não pretendia ignorar as dificuldades levantadas pelas discrepâncias explícitas entre os evangelhos. Resolvi levar ainda mais adiante a questão, pressionando Blomberg em alguns pontos evidentemente contraditórios que os céticos geralmente usam como exemplo de falta de confiabilidade dos evangelhos.


Lidando com as contradições

Destaquei primeiramente a história de uma cura muito conhecida.

— Em Mateus, lemos que um centurião foi pessoalmente a Jesus e lhe pediu que curasse seu servo. Lucas, porém, nos diz que o centurião mandou que os anciãos fossem até Jesus. Naturalmente trata-se de uma contradição, não é verdade?

— Acho que não — respondeu Blomberg. — Pense da seguinte forma: no mundo atual, ouvimos no noticiário “que o presidente declarou hoje…”, quando na verdade o discurso foi redigido por alguém encarregado de escrevê-lo e lido pelo secretário de imprensa — e, com um pouco de sorte, talvez o presidente tivesse a oportunidade de vê-lo em um certo momento entre a primeira e a segunda etapa. Nem por isso podemos dizer que a reportagem estava errada.

Da mesma forma, no mundo antigo, era perfeitamente compreensível e aceitável que se atribuíssem às pessoas ações que, na verdade, foram praticadas por seus subordinados ou emissários — no presente caso, pelos anciãos do povo judeu.

— Então, em outras palavras, o senhor está dizendo que tanto Mateus quanto Lucas têm razão?

— Exatamente — disse ele.

Parecia plausível. Citei em seguida um outro exemplo:

— E quanto à afirmação de Marcos e Lucas, segundo a qual Jesus enviara alguns demônios para uma vara de porcos em Gerasa, enquanto Mateus refere-se a Gadara. As pessoas dizem que a contradição é óbvia nesse caso e que não há como resolvê-la: trata-se de dois lugares diferentes. Caso encerrado.

— É melhor não dar o caso por encerrado tão cedo — disse Blomberg com um sorriso sutil. — Uma possível solução para isso é que um dos lugares mencionados era uma cidade, e o outro, uma província.

A resposta de Blomberg me deu a impressão de uma solução muito fácil. Era como se ele estivesse evitando as verdadeiras dificuldades colocadas pela questão.

— Acho que a coisa é um pouco mais complicada — eu disse. — A cidade de Gerasa nem sequer ficava perto do mar da Galiléia. Mas foi exatamente para lá que os demônios se dirigiram depois de entrar nos porcos, precipitando-os para a morte de cima de um penhasco.

— Muito bem, boa questão — disse Blomberg. — Mas existem ruínas de uma cidade cujo sítio de escavação fica exatamente na margem oriental do mar da Galiléia. A forma que o nome da cidade geralmente toma (em inglês) é “Khersa”. No entanto, como toda palavra hebraica traduzida ou transliterada para o grego, é provável que soasse bem próxima de “Gerasa”. Portanto, o episódio pode ter ocorrido em Khersa (cuja grafia em grego acabou dando “Gerasa”), na província de Gadara.

— Excelente — admiti sorrindo. — Ponto seu. Mas há um problema que não é nada fácil de resolver: as discrepâncias entre as genealogias de Jesus em Mateus e Lucas? Os céticos normalmente as consideram totalmente inconciliáveis.

— Trata-se de um outro caso de múltiplas opções — disse Blomberg.

— E que opções são essas?

— Segundo as duas mais comumente aceitas, Mateus refletiria a linhagem de José, já que a maior parte do primeiro capítulo adota a perspectiva de José que, como pai adotivo, seria o antepassado legal por meio de quem a linhagem real de Jesus seria traçada. São esses os temas que importam a Mateus. Lucas, por sua vez, teria traçado a genealogia de Jesus com base na linhagem de Maria. E, já que ambos são descendentes de Davi, basta recuar mais um pouco para ver que ambas as linhagens acabam convergindo. A outra opção postula que ambas as genealogias refletem a linhagem de José, porque têm como objetivo o estabelecimento de rotinas legais necessárias. Uma delas, porém, seria a linhagem humana de José (evangelho de Lucas), ao passo que a outra seria a linhagem legal de José, sendo que ambas divergem nos pontos em que determinam antepassados que não tiveram descendentes diretos. Estes eram obrigados a suscitar descendência por meio de várias práticas previstas no Antigo Testamento. O problema torna-se maior porque alguns nomes são omitidos, o que era perfeitamente aceitável pelos padrões do mundo antigo. Existem ainda variantes textuais: nomes que, traduzidos de uma língua para outra, geralmente recebiam grafias diferentes e eram facilmente confundidos com os de outros indivíduos.

Blomberg concluíra sua argumentação: existem ao menos algumas explicações racionais. Mesmo que não sejam perfeitas, no mínimo harmonizam razoavelmente os relatos evangélicos.

Para que nossa conversa não se transformasse em uma espécie de tortura intelectual, resolvi seguir em frente. Nesse ínterim, Blomberg e eu concluímos que seria melhor tratar cada questão individualmente e, assim, procurar descobrir se existe um modo racional de resolver o aparente conflito entre os evangelhos. É claro que não faltam livros em que o assunto é abordado exaustivamente e com competência, chegando a detalhes excruciantes em sua tentativa de conciliar as diferenças.

— E haverá momentos — disse Blomberg — em que talvez tenhamos de suspender nossa avaliação e simplesmente acatar o fato de que, uma vez compreendida a maior parte dos textos e considerando-os confiáveis, podemos dar-lhes então o benefício da dúvida toda vez que não tivermos certeza sobre um detalhe ou outro.


Fonte: STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo: um jornalista ex-ateu investiga as provas da existência de Cristo. São Paulo: Editora Vida, 2001.